A cúpula do Banco de Brasília (BRB) foi formalmente advertida sobre a precariedade dos ativos do Banco Master ainda em 2024, mas optou por prosseguir com transações que somaram bilhões de reais. Documentos obtidos pela Polícia Federal indicam que cerca de 90% da carteira de crédito negociada entre as instituições apresentava inconsistências graves, falta de lastro e indícios de manipulação documental. Mesmo diante desses sinais de alerta, a diretoria colegiada do banco estatal manteve o fluxo de recursos, ignorando riscos prudenciais e financeiros que, posteriormente, culminariam em uma crise sem precedentes para a instituição.

Fachada do Banco de Brasília

As investigações apontam que o BRB ignorou alertas internos e externos sobre a saúde financeira do Master. A estratégia de aquisição de carteiras, que serviu como base para uma tentativa frustrada de compra do banco privado, foi marcada por uma sequência de irregularidades. Peritos da PF identificaram que, em diversos casos, os pagamentos eram liberados antes mesmo da conclusão das análises técnicas necessárias. Esse comportamento, classificado pelos investigadores como gestão temerária, permitiu que ativos sem valor real fossem incorporados ao balanço do banco público, comprometendo seu capital social.

O esquema envolvia a criação de uma verdadeira "fábrica de documentos". Para validar as carteiras de crédito vendidas ao BRB, o Master utilizava dados de clientes de programas de consignado para gerar, em massa, Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), procurações e termos de consentimento. A perícia constatou que muitas dessas operações não possuíam liquidação financeira real, servindo apenas para mascarar a ausência de lastro. Empresas de fachada, sem capacidade operacional ou funcionários, foram utilizadas para dar uma aparência de legitimidade às transações.

O relatório detalha que, entre o final de 2024 e meados de 2025, o BRB injetou cerca de R$ 16,7 bilhões no grupo Master. A operação, que visava a aquisição do banco privado, foi barrada pelo Banco Central em setembro de 2025, após a descoberta das fraudes. A partir desse momento, o BRB viu-se obrigado a apresentar planos de recomposição de capital bilionários para tentar estancar o prejuízo causado pela exposição aos ativos podres do Master.

Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master

Além das falhas técnicas, a investigação foca na conduta dos gestores. Mensagens extraídas de dispositivos apreendidos revelam que a diretoria do BRB tinha ciência das fragilidades, mas priorizou a continuidade dos negócios. O inquérito também apura a possível influência política na estratégia financeira do banco, com menções à atuação direta de figuras do alto escalão do Distrito Federal na articulação das negociações. Atualmente, tanto o ex-presidente do BRB quanto o ex-dono do Banco Master encontram-se presos, enquanto as autoridades buscam recuperar os valores desviados e responsabilizar os envolvidos na gestão fraudulenta que abalou a credibilidade da instituição financeira.